violencia na escola
Está claro que estas posições relativistas e relativizadoras, que são parte constitutiva do fazer antropológico, quando não se tratam de simples exercícios acadêmicos, podem facilmente se tornar - no mínimo - posições eticamente indefesáveis.
Mas, nosso tema aqui é a violência na mídia. Portanto, estamos falando de uma violência narrativa, ficcional - estética - diriam alguns. Cabe pensar então o que é esta violência veiculada na mídia. A mim, imediatamente, vêm imagens de um desenho animado Tom & Jerry, cenas de algum filme de gangster, crianças famintas em algum nordeste do planeta, pingüins mortos em praias manchadas de óleo, uma cinzenta nuvem atômica. Os flashes são muitos e minha memória os apresenta como slides que caem em seqüência. Penso em todas estas cenas como violência e na impossibilidade de hierarquizá-las em graus de violência, em uma escala de perversidade. Mas, certamente, o conteúdo das violências que tomei como exemplares da mídia equivalem-se entre si. Tampouco, apresentam o mesmo grau de nocividade em suas diferentes possibilidades de recepção e decodificações. Busquei no texto Sugestões para os pais do uso da mídia das Associações Médicas Americanas, ao que exatamente estava se chamando violência: Quais cenas, quais programas, quais ações, quais falas? Ocorreu-me que a questão talvez fosse inútil, pois da forma que o texto aborda o problema, violência é o Mal (ninguém duvidaria disto) e ele está disseminado por tudo (tudo aqui significando toda a programação, a produção, os espaços cibernéticos e virtuais dos impulsos luminosos e sonoros do medium) de tal forma que o próprio aparelho de televisão passa a ser o invólucro e emblemático deste Mal. Tomando-se isto como verdade, a solução apresentada pelo grupo de médicos é cândida: normatizar o acesso ao aparelho por meio do reforço da autoridade paterna.
O problema me parece muito mais amplo e complexo do que isto. Digo, muito mais complexo do que um problema de administração doméstica e de fórmulas de como dispor do aparelho de televisão na sala de estar. A responsabilidade social (e neste sentido moral) dos produtores e empresários da mídia não está sendo questionada.
Além disto, o efeito, relevância e eficácia de qualquer mensagem produzida pela indústria cultural será diretamente relacionada com a situação de recepção e decodificação desta mensagem. Uma sociedade individualizada ao extremo, como é o caso da sociedade norte-americana, com opções de sociabilidade muito diferenciadas da sociedade brasileira, por exemplo, no caso, relacional e hierárquica, a televisão e determinadas mensagens têm uma dimensão que não tem aqui. Não esqueçamos que a mesma programação que passa lá, de um modo geral, é apresentada aqui também. Os efeitos são diversos e o lugar que a televisão ocupa na vida das pessoas lá e aqui é muito diferenciado.
Poderíamos levantar uma hipótese: a de culturas ou sociedades do tipo narcisistas, isto é, culturas que se caracterizam por um etnocentrismo exarcebado, por uma valorização do individualismo, uma exaltação ufanista do estado nacional, culturas autocentradas e autônomas, voltadas exclusivamente para si ou que incorporam suas adjacências como parte de si mesma, são culturas violentas. Isto é, sociedades onde a guerra é um fator de organização e coesão social, e onde os seus membros apresentam um comportamento violento, ou onde este comportamento passa a ser um modo de vida dentro desta sociedade. O interessante é que o que podemos apresentar como exemplo deste tipo de sociedade são dois pólos opostos, várias das sociedades assim chamadas primitivas, que por seu isolamento e nível sempre se pensava como únicas e como umbigo do mundo e as sociedades industriais avançadas e pós-modernas, entre as quais os Estados Unidos é exemplar. Nas primeiras, já nos demonstrou Pièrre Clastres, na ausência do Estado, a violência tem que ser controlada via ritual. Nas segundas, o Estado e as instituições, que deveriam controlar a violência, geram formas próprias de violência.